quinta-feira, 20 de maio de 2010

O meu indie foi mais indie que o teu II

Videocracy, embora me tenha suscitado simpatia pelo empenho genuíno que coloca em expor a revolução cultural (como se descreva a certa altura) de rabos e mamas iniciada há cerca 30 anos por Berlusconi, e tenha também o mérito de não cair no documentário de intervenção/confrontação à la Moore, tem o seu tendão de aquiles, e ao mesmo tempo, a sua contradição mais fascinante, no facto de não conseguir por vezes evitar cair nesse mesmo culto da banalidade, ou não fosse o realizador, Erik Gandini, também ele um "produto" desse absurdamente genial golpe de projecção de uma personalidade sobre uma nação inteira.
Bem mais interessante, foi no entanto, Lebanon, escrito e realizado por Samuel Maoz, que por aí anda nas salas. À inevitável comparação com o também belíssimo Vals Im Bashir de há um par de anos (ambos procuram lidar com a memória e com a herança da participação na primeira guerra com o Líbano em 1982 enquanto jovens soldados israelitas, em particular, e com o caos da guerra, em geral), segue-se um  mergulho numa película que potencia tão inteligentemente o seu dispositivo narrativo (e estimula todos os sentidos), que só vendo mesmo.
Não menos cativante foi Strange Powers: Stephin Merritt and the Magnetic Fields, realizado por Gail O'Hara (há já largos anos a fotógrafa oficial dos Magnetic Fields, que lhe proporciona uma perspectiva única) e Kerthy Fix. Um retrato da persona e da pessoa de Stephin Merritt, o talentoso compositor que se sabe, e não menos impressionante letrista, acompanhando-o ao longo dos anos, ziguezagueando sem perder o fôlego pelo mundo como ele o vê: rídiculo e girando à sua volta.

Today, I feel collins

"Que tarolão!"

Filipe da Graça, arrebatado pelo seu novo som de bateria

quarta-feira, 19 de maio de 2010

O meu indie foi mais indie que o teu

Este ano tive um Indie Lisboa atípico. Foi claramente a edição em que vi menos filmes nos últimos anos e também aquela em que a minha agenda mais andou em consonância com os chamados destaques do festival, ao que não será alheio o facto de praticamente só ter ido a sessões no horário de digestão do jantar.
Tinha de aproveitar a oportunidade única de ver Kasaba, a primeira longa-metragem do mestre Ceylan, em sala, que me confirmou definitivamente que a sua ideia de cinema está lá desde o início e me permitiu finalmente, com todas as peças do puzzle na mão, ter verdadeira noção do brilhantismo da depuração que tem vindo a executar ao longo dos anos.  
L'Enfer de Henri-George Clozout foi outro que valeu a pena. Um documentário sobre a pré-produção e rodagem da obra-prima, nunca concretizada, que Clouzot preparava nos idos de 60  com uma Romy Schneider no auge da sua carreira (e beleza). Para além da atracção natural que desperta em quem se interesse pela sétima arte mais profundamente que o nível do sofá ou do assento da sala (os testes de cor e os devaneios psicadélicos, visuais e sonoros, a que Clouzot incitou a enorme equipa que reuniu a explorar durante um ano são deliciosos), é a inteligente progressão narrativa em pendant com os da película que Clouzot preparava, uma análise ao ciúme e à obsessão, que o transformam numa fascinante viagem ao universo de um cineasta, especialmente tratando-se de um realizador tão impenetrável como Clouzot. 
Vi também Tales From the Golden Age, projecto de Cristian Mungiu, que juntou vários realizadores da nova talentosa geração de cineastas romenos, incluindo ele próprio, para realizar várias estórias passadas no não tão distante tempo em que Ceausescu governava com mão de ferro a terra de Vlad, a denominada golden age pela propaganda comunista, aqui exposta através de um dispositivo cómico, a roçar o rídículo por vezes, mas que nunca esconde o ternura com que trata todas as suas personagens (de ambos os lados das estórias). Escrito pelo próprio Mungiu, é acima de tudo, uma impressionante demonstração de polivalência desta nova geração romena (depois do realismo soberbo dos últimos anos) que numa hipotética copa de cinema, seria sem dúvida, a vencedora incontestável (derrotaria a Argentina na final por 2-0).

Desbocado como Brel

"Esse pré-amp é uma cagada. Confio mais no Micro Cube que num Yamaha."

Sebastien Matias, engenheiro de som belga no calor da labuta

terça-feira, 18 de maio de 2010

As estórias da história

Mais que histórica, é uma consciência bélica a que por aqui se manifesta nestes dias banhados pelo sol primaveril. Por entre a saga d'As Benevolentes, já se atravessaram Seis Grandes Comandantes, de Theodore Ayrault Dodge e Quinze Batalhas Decisivas da Humanidade - De Maratona a Waterloo, de Edward Shepherd Creasy. E um outro, que versa sobre o modo como Churchill moldou o Médio Oriente em geral e o Iraque em particular, no pós-WWI, segue já em velocidade de cruzeiro. Isto para além de tudo o que é ficção ou documentário de contexto histórico que ouse passar à minha frente.
É a guerra, meus senhores. Porrada da grossa, mesmo. A história da dita, as estórias das ditas, as estratégias, as tácticas, a arte de manobrar milhares de homens com precisão euclidiana, as vitórias forjadas em desproporções hercúleas, o destino do Homem onde deve ser decidido, onde os impérios caem, onde os mitos nascem: no campo de batalha. Jonathan Littel oferece a uma personagem d'As Benevolentes a seguinte frase: "...a próstata e a guerra são dois dons que Deus deu ao homem para o compensar do facto de não ser mulher." Concedendo que o primeiro "dom" variará consoante a utilização que cada  "abençoado" lhe der (embora desconfie que, por exemplo, um estratego militar maior da história da humanidade como Alexandre, o Grande, não o teria em pouca consideração), é o segundo, a guerra, que se afigura como a justa medida de equilíbrio nessa balança. De pouco servirá a criação, se não se aspirar à elevação.
Não é coisa pouca, a arte de guerrear, não senhor.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

A C DE CROCHÉ JOINT

"White Men Can Jump...And Dance"

starring


                                  Larry Bird               Jamie Lidell

domingo, 16 de maio de 2010

Re-tratar

Francis Bacon "Study after Velázquez's Portrait of Pope Innocent X" (1953)

sábado, 15 de maio de 2010

Reflorescer

Agora sim, é Primavera. Discos a serem gravados; discos a serem editados; velhotas que atiram: "não passo deste verão", como se sacassem duma pistola e a apontassem à nossa cabeça; por todo o país, miúdos sem paciência para o liquido amniótico, saltam cá para fora; bifes que conseguem, debaixo de um céu nublado e chuva, encontrar o melhor ângulo para se bronzearem; homens de saia a esvoaçar no Terreiro do Paço; power-pópe como banda-sonora disto tudo. Também há os concertos, claro, mas desses estou momentaneamente arredado dada a distância. Bem, alguém que me belisque (ou mate uma andorinha) para confirmar que não estou a sonhar.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

...está cinzento

À medida que a hora avançava e os Picos Gémeos se iam aventurando mais e mais nas profundezas do cabaret, outras misteriosas criaturas (coelhos, maçãs de prata, alfaiates malucos, entre outros) iam aparecendo, como que por magia, à frente dos seus olhos, juntando-se ao uivo desesperado d'O Cão da Morte neste cabaret das maravilhas.
Parte dois da epopeia canina pode ser vista aqui.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Olha que hoje o céu..

Diz-se que ali para os lados da Praça de Alegria, em certas noites de lua cheia, por entres os neons lustrosos e a memorabilia do nacional-cançonetismo de um cabaret, se pode ouvir uma estranha criatura deambulando pelas suas profundezas, de guitarra em punho, entoando canções que se dizem ter-lhe sido oferecidas pelo Diabo em pessoa. 
Desta mística criatura, que o imaginário popular baptizou de "O Cão da Morte" pouco se sabe, tirando o facto de ser jovem, muito jovem (eternamente jovem até, dirão alguns), e que ao contrário dos rumores que por aí tem espalhado o Adolfo (o português sinistro, não o germânico destro), quando o seu bafo nos assenta no pescoço, a luz não fraqueja no horizonte, muito pelo contrário, resplandece, ganha amplitude e adquire os mais variados tons. 
Os Picos Gémeos foram à sua procura numa noite chuvosa de Fevereiro.
Parte um da busca pode ser vista aqui.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Não te apoquentes


Ultimamente só cá venho para isto, é verdade, mas melhores tempos virão, confiem. Por ora, fica mais uma das tais malhas novas, para mais tarde compilar como "Filipe da Graça & C de Croché Voltam à Garagem, Vol.1". Esta chama-se "Marca d'Água" e cheira-me que não deve ser bom carácter. Claramente derivativa, algo interesseira no modo desenvergonhado como se assume como meia-canção, isto para não falar do piscar de olho.... ao quê? Ao verão, pois claro. Podíamos lá passar sem mais umas referências aquáticas. Só faltava a palmeira e o capri-sonne. Enfim, é por vossa conta e risco.

(A foto? É do João Gambino, obviamente)

segunda-feira, 19 de abril de 2010

...da Graça


Já se encontra disponível para audição outra das malhas que falava no postal anterior. Esta chama-se "Amor Próprio" e é duplamente abençoada, porque serve também como orgulhosa desculpa para o debut do espaço musical de Filipe da Graça, onde se revelarão ao mundo muitos dos riffs que trautearemos por essas pradarias fora. Aqui.

(novamente, a foto é do João Gambino)

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Passou-me aqui um tsunami


O blogue não tem sido actualizado porque descobri (e este "descobri" deve ser interpretado no mesmo sentido dos Descobrimentos Portugueses, ou seja, a questão não é se a coisa existe, mas sim se um gajo tem os tomates de se jogar à água e, a parte mais divertida, se depois consegue lá chegar para "resolver" aquilo aos nativos) que tinha outras coisas bem mais importantes para actualizar na minha vida.
Mas como ontem passou-me um maremoto ou uma tromba d´água ou lá como é que aquilo se chama, aqui a uns metros de casa (que aliás aproveito para dizer que filmei em muito melhor qualidade e com muito mais estilo do que aquele meu vizinho, cujas imagens por aí circulam) que me fez temer pelo meu mac e respectivo recheio, que reparo agora que está estrategicamente colocado junto a uma bonita e ampla janela a dar para o rio (muito parecida com aquelas que normalmente se vêem todas rebentadas quando lhes passa um tufão ou um vulcão ou lá o que é, por cima), decidi começar a vazar isto (em vez de o mudar de sítio) antes que comece para aí a chover sapos ou venha uma saraivada de cinzas da Islândia, que são tudo coisas a que esta janela não tem ar de conseguir resistir.
Posto isto, tenho aqui umas malhas que nasceram num daqueles fins-de-semana típicos cá para estes lados (embora cada vez mais raros, para grande desgosto dos meus avós) de visita à terra natal, onde não há mais nada para fazer a não ser um gajo enfiar-se na garagem e tocar o mais alto que conseguir. A diferença foi que eu e o meu irmão, Dom Filipe da Graça, decidimos tornar este fim-de-semana mais produtivo, e o objectivo a que nos propusemos foi compor e gravar umas quantas malhas de raiz, o mais directas possíveis e, pormenor importante, que dessem o mínimo de trabalho. Em resumo, primeiros takes e decisões sobre o que fazer só baseadas no nível de diversão que o acto comportava. Podem ouvir aqui a primeira, chama-se "Mar da Palha" e dificilmente podia vir em altura mais certeira, tendo em conta os dias conturbados que por lá se vive (e até lá está o raio da janela). Grunge algarvio, diz quem já ouviu. Charolastrices, digo eu.

(a foto é do João Gambino)

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Retracção pascal

 Goa, 2004 da série "Jesus Never Fails"
António Júlio Duarte

P.S. - manzana, tinhas razão, o homem sabe o que faz...

terça-feira, 6 de abril de 2010

Da imprevisibilidade

O equilíbrio entre a arte e o artesanato é o mais difícil de encontrar, entre outras coisas, porque pode só existir num espaço e num tempo tão flutuante quanto a prestação de um baterista embriagado.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

La Fontaine

Brilhante versão de uma das mais populares fábulas de La Fontaine, a águia e o bode (expiatório).

domingo, 4 de abril de 2010

Grande y Felicísima Armada

Philip James de Loutherbourg "Defeat of the Spanish Armada, 8 August 1588" (1796)

sábado, 3 de abril de 2010

Bullying

Agora que o tão bretã arte do bullying anda pelas bocas do mundo, há que recordar uma das suas primeiras duplas arrasadoras: Andy Rourke e o seu baixo.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

A muralha de Adriano

Tal como o império romano, um gajo tem que ter noção que não se pode pura e simplesmente esticar em todas as direcções sem que por isso lhe seja cobrado um preço. Preço esse, provavelmente mais elevado do que aquele que pode pagar. Mas sem encontrar o norte, como erguê-la?

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Intervalo

"...nenhuma nação é temporariamente tão formidável para os seus vizinhos como aquela que, habituada a instituições livres, passa subitamente a ser governada por um déspota. A energia das instituições democráticas sobrevive durante algumas gerações e são-lhe sobrepostas a determinação e a certeza, atributos da governação quando todos os seus poderes são orientados por uma única mente. É verdade que este vigor sobrenatural é de curta duração: à perda das liberdades nacionais seguem-se, gradualmente, a corrupção e o alvitamento. Mas até se sentirem as suas consequências decorre um intervalo de tempo, no qual os mais ambiciosos esquemas de conquista são, frequentemente, levados a cabo com êxito."

em Quinze Batalhas Decisivas da Humanidade - De Maratona a Waterloo, de Edward Shepherd Creasy