No postal de ontem (eheheh) esqueci-me de referir um dos efeitos secundários mais recorrentes (em mim, pelo menos) depois do consumo de uma actuação de Samuel Úria solo style e do qual também já não tinha memória: a compulsiva escrita de letras novas. Ainda o homem não tinha acabado de tocar e já eu sacava do telemóvel para tentar dar vazão à torrente que começava a formar-se na minha cabeça. Se valem alguma coisa ou não, já é outra questão completamente diferente. Parece que o talento inspira e o importante é ter fé (proteste ela ou não).
sábado, 13 de novembro de 2010
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
A noite do santo não mártir
Ontem foi noite de S.Martinho, o que por estes dias não quer dizer absolutamente nada, tirando o facto de ser mais uma desculpa para se embarcar em noites que não acabam. Um bocado como a passagem de ano sem a rua cheia de pessoas com flutes de plástico na mão e sem imagens de foguetes a rebentar nos céus de Sydney ao meio-dia (e que, dada a proximidade, aproveito para voltar a explicar que é a melhor altura do ano para um gajo se pirar para o estrangeiro, coisa que infelizmente só percebi há poucos anos, mas felizmente antes de ter putos para me impedirem de ir para o estrangeiro ou para me multiplicarem a factura de ir para o estrangeiro, ou até para, como me confessam alguns amigos mais saudosistas, tirarem a piada ao estrangeiro) ou como os santos populares, sem os manjericos e aquela coisa lisboeta de sociedade feudal que se está a cagar para as classes sociais por uma noite. É que já quase ninguém finge sequer que está interessada em comer castanhas ou em beber vinho, cuja principal qualidade nesse mesmo dia é ainda não ser vinho. Mas adiante.
Quis a boa gente do Botequim (qualquer dia levo para lá o mac e tal e faço daquilo a minha sala) e quis o Samuel Úria que tivéssemos direito a uma desculpa bem melhor para celebrar o Yom Kipur ou lá o que era aquilo ontem: nada mais nada menos que um concerto sem amplificação do próprio, no dito espaço. Ora, nenhuma pessoa com dois ouvidos, ou até mesmo só com um, poderá discordar do facto de que isto são excelentes notícias e garante de uma noite melhor passada do que a maioria das que compõem as suas tristes e vazias vidas. Mas a verdadeira excelência de tais notícias só me chegou algures durante a própria actuação, por entre as doses abismais de talento e clássicos absolutos que o bom homem ia destilando, graças a uma palavrinha que não me saía da cabeça: saudade*. Porque, quase sem que me apercebesse disso, há já largos meses que não via um concerto Sami sem banda, o que sem qualquer desprimor para aquela belíssima gente que o acompanha, é a sua verdadeira praia. Digamos que é aquela praia onde o flor-caveirense faz nudismo à moda antiga, sem medo dos olhares ou do escaldão. Diz o povo que a mais genuína saudade é aquela que nos apanha desprevenidos. A ser verdade, fui atropelado por um camião de saudade e nem lhe vi a matrícula.
Enfim, poderia ficar aqui o resto do dia com metáforas mais ou menos rebuscadas para descrever o talento do tondelense mas não o faço por uma razão muito simples: a amizade que nos une. É que a paixão que tenho pelo talento do homem é de tão elevada grandeza que não me responsabilizo pelos elogios que me possam fugir dos dedos, e depois ainda calha ele ler isto e fica uma tensão homoerótica perfeitamente dispensável numa relação de amizade entre dois machos à moda antiga. E para isso já basta a malha aí em baixo.
Ah, e não é que, ao fim da noite, ou melhor, hoje de manhã, não fui para a cama, ou melhor, não comecei o dia, sem comer as ditas castanhas? Cortesia de um espaço que não sendo um bar, tem sido paragem obrigatória nos últimos tempos. Este ano só me faltou mesmo o vinho ainda não vinho. Para o ano é que é.
* Para quem não estiver familiarizado com o conceito, passo a explicitar: saudade é aquele palavra que as bandas de roque estrangeiras eram obrigadas, por contrato, a dizer quando vinham cá ao burgo tocar para mais de 1.000 pessoas, nos anos noventa. E tinha de ser dito com ar de quem já cá tinha estado antes e dado o melhor concerto das suas vidas. Opcionalmente podia ser seguido por um "I missed you?" ou por "This afternoon I went to Bairro Alto and listened to some Fado".
P.S. - Também não me estico mais porque já é terça e tenho de ir escrever o resto dos postais que queria ter escrito nestes últimos dias, fingindo que foram escritos nos próprios. Porque se isto é para existir, é para manter a disciplina do postal diário. E a disciplina é fundamental, como diz o pastor. Assim pelo menos já vou namoriscando com o conceito. E por falar em conceito, nessa mesma noite, sugeriu-se que alguns produtos (é o que chamo aos que são pagos) e conceitos (é o que chamo àqueles em que perco guito), nos quais tenho a minha quota parte de responsabilidade, seriam algo farsolas. Desminto-o categoricamente e sinto-me até ofendido que me achem capaz de tal abjecta falta à verdade. Agora vou escrever o postal de sábado que já é quase quarta.
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
Postal para a Margarida II
Outra atracção venezuelana do maior interesse sociológico é, sem dúvida, a afamada maternidade de Misses Universo. Fruto do labor de uma vida do Alfredo da Costa deles, que, mais do que proporcionar melhores condições ao nível da assistência materno-infantil às venezuelanas, sonhava um dia poder oferecer uma Miss Universo a cada venezuelano. O edifício, situado bem no centro de Caracas, merece por si só uma visita, destacando-se o efeito espectacular provocado pelas frases de ordem inscritas por todo o interior e exterior do edifício, como: "World Peace" ou "End Hunger in Africa", que, como se sabe, têm tido um efeito tão devastador nas futuras Misses Universo como os escritos nas paredes da estação de metro da cidade universitária têm nos futuros licenciados pelas faculdades da zona.
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
Em vias de extinção
Sarah: I know he wasn't happy. That doesn't tell you much. I'd no idea how bad it was. I think he purposely wanted to cut off from all of us because he was so unhappy with where he was at.
Nick: Hm.
Karen: Is that true, Chloe? Did you feel that?
Chloe: I don't know. We had some good times. I haven't met that many happy people in my life, how do they act?
Nick: Mm hm.
em The Big Chill, argumento de Lawrence Kasdan e Barbara Benedek
Nick: Hm.
Karen: Is that true, Chloe? Did you feel that?
Chloe: I don't know. We had some good times. I haven't met that many happy people in my life, how do they act?
Nick: Mm hm.
em The Big Chill, argumento de Lawrence Kasdan e Barbara Benedek
terça-feira, 9 de novembro de 2010
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
Postal para a Margarida
Sabaneta, uma pequena cidade que é a capital do município Alberto Arvelo Torrealba (foi poeta e político, uma espécie de Manuel Alegre lá do sítio, mas sem a experiência radiofónica em Argel). Não só alberga aquela que é unanimemente considerada uma das piores prisões do mundo, La Sabaneta, onde só nos últimos anos morreram mais de 1.000 pessoas (não consta que nenhuma fosse documentarista, pelo menos de profissão), como ainda pariu o mais famoso de todos os venezuelanos (depois de Carolina Herrera e Gustavo Dudamel), Hugo "El Presidente" Chávez. Um must.
domingo, 7 de novembro de 2010
sábado, 6 de novembro de 2010
Vai buscar
Desarmado, percebi
Finalmente toda a estória (não era grande espingarda)
Mas num recanto da minha cabeça
Vislumbrei a glória
Mas não estava escrito assim
No turbilhão da separação
superaste-te em libertação
Não há por aí, um espaçinho para mim?
Finalmente toda a estória (não era grande espingarda)
Mas num recanto da minha cabeça
Vislumbrei a glória
Mas não estava escrito assim
No turbilhão da separação
superaste-te em libertação
Não há por aí, um espaçinho para mim?
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
Nuberu Bagu
Vi recentemente Noite e Nevoeiro no Japão e nele descobri um Nagisa Oshima que não conhecia. O filme data de 1960 e é um dos quatro que Oshima realizou entre 1959 e 1960. É uma portentoso retrato político de uma nova geração de japoneses que se rebelava contra a amorfa e americanizada sociedade saída do trauma da segunda guerra mundial e, descubro agora, um dos filmes chave da Nuberu Bagu, o novo cinema japonês, que foi buscar o seu nome à tradução directa da Nouvelle Vague franciú.
Mas ao contrário de todas as outras vagas de cinema novo que surgiram por todo o mundo inspiradas na francesa, o movimento japonês tem a particularidade de ter surgido ao mesmo tempo, se não mesmo antes. E salvo as devidas distâncias, podemos arriscar dizer que Oshima foi o seu Godard. A mise en scène, os diálogos e os movimentos de câmera que os introduzem não enganam, são políticos até ao tutano. Oshima tem é uma outra relação com a carne, com o sexo. Em Oshima, o sexo não é usado para validar a entrega, a paixão, a urgência dos personagens como em Godard, funciona antes como expressão do turbilhão interior de cada personagem, e é um exercício de libertação social, política pura portanto. E não falo só de sexo, falo de tudo o que é sexual. Há uma violência latente em cada toque, em cada olhar, que leva o filme para um patamar de intensidade que chega a roçar o cruel.
Apaixonado, vou agora à procura de Contos Cruéis da Juventude.
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
Uma questão de corpo
Halcyon Digest passará à história como o momento em que nos apercebemos que aquilo que se vinha desenhando à frente dos nossos olhos desde o primeiro dia, passando por Atlas Sound e Lotus Plaza, era o mais impressionante body of work dos últimos anos. Psychedelic, kraut, dreamy, indie, pop, shoegaze, à la juventude sónica, à la colectivo animal, you name it. E que nunca exigiu muito para ser desfrutado em toda a sua plenitude: um ou dois ouvidos no mínimo estado de conservação e uns bons auscultadores.
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
terça-feira, 2 de novembro de 2010
Postal para o maralhal
A todos os que a mim se abraçam de olhos embargados na rua (os fãs nacionais), a todos os que me entopem a caixa de correio com desesperados pedidos de actualização (os fãs internacionais), a todos os que me incitam a não desistir da luta e me relembram o papel social de qualquer blogue gritando espectaculares frases de apoio (os amigos de esquerda), a todos os que compreendem que tudo tem um fim e não há almoços grátis (os amigos de direita), a todos os que me enchem a caixa de correio com bilhetes e notas românticas (na sua maioria mulheres), a todos os que têm obstruído a porta da minha casa com coroas de flores, velas, bilhetes de condolências e música do Elton John (gente que eu não conheço), a todos os que não têm paciência para mais que ler em diagonal se o postal tiver mais de cinco linhas mas que acham simpático que isto continue a existir (o meu irmão), a todos aqueles que não deixo de ler mesmo que não escreva (os amigos com mãos de fada), mas acima de tudo, a toda aquela maioria silenciosa que por aí se arrasta cabisbaixa, demasiado desanimada para sequer se manifestar, eu digo: Calma!
Até amanhã.
Até amanhã.
quarta-feira, 29 de setembro de 2010
"Mano a Mano"
Interrompo a minha licença sabática para não correr o risco de privar alguém de pousar os olhos neste belo cartaz. Levemente inspirado no papel de parede de uma sapataria Charles onde apanhei valentes secas em miúdo. Infelizmente, o brilhantismo do cartaz ofuscou-me de tal maneira que me convenci de que merecia mais que este palco e vai daí, decidi partilha-lo no myspace. Não foi nada boa ideia. Um simples ok dado a algo que não li foi o suficiente para estropiar (irrevogavelmente, dizem-me os entendidos) a minha, até aqui, singela mas eficaz página no myspace (e isto não é só uma desculpa para linkar a dita cuja, alguém pode sinceramente dizer que isto é um sítio onde apeteça ficar mais que cinco segundos?). É para aprender a não ser garganeiro.
terça-feira, 7 de setembro de 2010
segunda-feira, 6 de setembro de 2010
A geografia da cidade
Quanto mais para norte e mais afastada do rio, maior a tendência para a pessoas verdadeiramente boas serem tratadas na melhor tradição seropositiva. É só elogios mas tocar-lhes, tá quieto.
domingo, 5 de setembro de 2010
sábado, 4 de setembro de 2010
sexta-feira, 3 de setembro de 2010
Moloch revisitado
Se inclusive o Todo-Poderoso se tinha dado ao trabalho de explicar a Moisés que o culto a Moloch não era boa ideia - algures lá pelo Levítico, não me perguntem é números - não foi por falta de aviso, não é verdade? E o enquadramento legal qu'Ele sugeria na altura também era bem menos simpático: menos estabelecimento prisional, mais lapidação. É darem graças a Ele por não estarem num qualquer Irão.
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
Do comprimento do roquenrole
Ele: Oh, young pretty hair. How'd you grow there?
Ela: What it is? What it is?
Eles: Ain't no wonder at all
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
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